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Mundo das coisas, pessoas, palavras e imagens



Sabemos que é comum as pessoas chorarem vendo filmes, assitindo novelas ou lendo livros. É normal; todos temos sentimentos. Na verdade, acho difícil encontrar alguém que nunca tenha se emocionado, a ponto de romper em prantos, nessas ocasiões. Só que algumas pessoas deixam suas emoções aflorarem com mais facilidade que outras. O que depende, claro, dos sentimentos com os quais estejamos lidando.

Muitas pessoas choram também com notícias que vêem na televisão, em particular, com tragédias e imagens fortes. São coisas que liberam sentimentos íntimos de cada um, disso posso dizer. Eu, por exemplo, me lembro de um documentário sobre vida selvagem, que mostrava um carcaju subindo numa árvore, até alcançar o filhote de águia no topo. O casal de pais águias tentava, em vão, distrair e assustar o carcaju, voando sobre ele, mas sem sucesso. E o filhote, meio já crescido, tentava voar e se defender mas não conseguia, e pude sentir seu desespero e o dos seus pais. Acabou que o carcaju abocanhou o filhote e o levou consigo. Fiquei chateado, meio deprimido, com vontade de chorar. Mas assim é a natureza. Talvez o carcaju só matou o filhote porque tinha, também, suas próprias crias para dar de comer.

Por isso, essa é uma questão muito complexa, que não tenho como tratar profundamente aqui.

Mas, antes de eu procurar saber porque filmes fazem as pessoas chorar, procurei investigar porque determinados filmes me fizeram chorar. Passei do particular para o geral. Comecei de mim, para depois tentar ver pelos outros. É claro que existem filmes feitos para esse propósito, isto é, levar o espectador às lágrimas... mas, em regra, só me fazem chorar aqueles dos quais trago coisas marcantes da minha vida – filmes nos quais a maioria das pessoas não choraria. Assim, não chorei quando vi “Diário de uma Paixão”, “Titanic” ou “O Paciente Inglês”. Longe disso. Meu caso é outro. Meus motivos para chorar são outros.

Vamos aos que mais me fizeram chorar:

1)   A Menina e o Porquinho (Charlotte´s Web). EUA, 1973. De Charles A. Nichols e Iwao Takamoto.

Toda vez que assisto esse desenho animado choro. Aliás, desde a primeira vez que o assisti, no SBT, num sábado a tarde. Eu era bem novinho. O desenho animado se divide em duas partes. Na primeira, temos o porquinho Wilbur que, desde que nasceu, foi adotado pela garotinha Fern, filha do dono da fazenda. Ela trata-o com o maior carinho e amor, dá banho nele, como bichinho de estimação. Entretanto, Wilbur começa a crescer, e o pai de Fern decide que é hora de ele ir viver com os demais animais da fazenda até engordar e ser abatido. Ponto.

Fern chora muito a perda do contato com seu bichinho, na seu quarto. Ela chora, fica triste, e eu junto com ela. O sentimento de perda é muito grande, dos dois. Entretanto, a menina sempre que pode vai visitá-lo no chiqueiro, junto aos outros animais, e fica lhe fazendo companhia e carinho. A menina se resigna, pois no seu íntimo sabe que seu pai tem razão.

Conversando com outros animais da fazenda, o porquinho descobre que, quando crescer mais, será morto e vai virar presunto. Fica apavorado. Sente-se sozinho no mundo, até porque Fern não tem como visitá-lo sempre. É aí que Wilbur faz amizade com Charlotte, uma aranha que lhe promete amizade e que fará o possível para evitar que Wilbur seja morto. Desenvolve-se entre os dois uma amizade enorme. Se antes o porquinho tinha Fern como mãe, agora tem Charlotte. Uma amizade e um amor existe entre os dois, como o de uma mãe que tenta, ainda que com recursos limitados, proteger seu filhote. Através de sua teia Charlotte tece frases sobre Wilbur. Essas frases tornam Wilbur famoso e fazem com que seu dono desista, de vez, da idéia de abatê-lo.

Mas Charlotte, como aranha, tem um vida curta. Depois de salvar Wilbur, ela constrói seu ninho e morre. O porquinho tem, então, sua segunda perda. Mas logo  uma porção de aranhazinhas brotam do ninho de Charlotte, e voam do celeiro em busca de uma nova vida. Mas três filhotes ficam lá no celeiro mesmo, morando junto com Wilbur, e se tornam amigos dele.

Quando assisti “A Menina e o Porquinho”, pela primeira vez, devia ter uns oito anos. Estava na casa da minha avó materna.  Alguns meses antes, minha mãe havia falecido. Havia perdido ela, mas até então não havia entendido bem o que era isso. Sabia que minha mãe havia morrido, mas comecei a sentir sua ausência, realmente, depois. Wilbur, Fern e Charlotte me ajudaram a compreender o que aconteceu. Ajudaram-me a lidar com a perda, a me resignar que, infelizmente, isto ocorre e que Deus tem planos para as pessoas independentemente da nossa vontade. E que, mesmo quando perdermos alguém, Deus nos aproxima de outra pessoa: no meu caso, do meu pai. O final do filme é a cena em que mais me emociono: as filhotezinhas de Charlotte voam felizes para fora do ninho, levadas pelo vento, dando “tchau” e “adeus” ao porquinho e aos outros animais da fazenda. Elas eram uma continuação da sua mãe. E eu sou um pedaço eterno da minha. Passo mais tempo chorando que assistindo “A Menina e o Porquinho”.

1)   As Aventuras de Pinóquio (The Adventures of Pinnocchio) EUA/Reino Unido, 1996. De Steve Barron. Com Martin  Landau.EUA/Reino Unido, 1996. De Steve Barron. Com Martin  Landau.

Nesta versão do conto clássico, Martin Landau faz Geppetto, o velho fabricante de bonecos de madeira que tem um de seus bonecos transformado magicamente em criança. Ele chama o garotinho de madeira que, quando mente, cresce o nariz, de Pinóquio. Pinóquio não é uma criança como qualquer outra, pois é todo de madeira. Mas é muito danado e seu comportamento não é diferente das demais crianças.

Minha maior identificação com filme reside na relação do pai com o filho. Geppetto já é um senhor com certa idade que se torna pai – e mãe - de repente. Tal como meu pai, ele tem de educar um garoto sem mãe (embora, no caso do meu pai, fossem três: eu e meus dois irmãos). Quando minha mãe faleceu, eu tinha apenas 7 anos, e meus irmãos 9 e 10. Quer dizer, durante grande parte da nossa criação, meu pai foi “pãe”.

Sinto-me mais emocionado nas cenas em que pessoas de má indóle tentam separar pai e filho. Certas circunstâncias fazem com que Geppetto, certa vez, abra mão da criação de Pinóquio, por acreditar que não é a pessoa mais adequada para tal, mas ele logo se arrepende e se vê entristecido pela partida do filho. Geppetto, então, reencontra-se com seu filho e diz que nunca, nunca mais deixará ele partir. Um tem o outro, e um deve cuidar do outro, apesar de todas as dificuldades da vida. Assim vejo eu e meu pai.

Assim como pinóquio era um garoto diferente dos outros, por ser de madeira, eu me via diferente da maioria dos da escola: afinal, havia perdido minha mãe muito novo.

3)   Gonzaga – De Pai para Filho. Brasil, 2012. De Breno Silveira.

O filme de Breno Silveira retrata a relação de dois grandes nomes da música brasileira: Luiz Gonzaga, Rei do Baião, e Gonzaguinha, seu filho, que se tornou um dos principais compositores e intérpretes da MPB. O filme foca nos desentendimentos entre pai e filho.

De novo, emocionei-me muito com esse filme que, pela natureza da sua história, é emocionante em si. Mas para mim foi mais forte, pois vários dos pontos da relação difícil entre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha eu vejo na minha relação com meu pai. Gonzaguinha, no fim das contas, sofria muito por não conseguir se entender com seu pai. Ele perdeu sua mãe quando tinha dois anos e meio e foi criado principalmente por Dina, esposa do amigo de seu pai, já que Gonzagão sempre viajava em turnê e quase não tinha contato com o filho.

Gonzaguinha cresceu no morro do São Carlos, no Rio, e cresceu um tanto revoltado e marcado muito mais pela ausência do pai cantor que pela morte precoce da mãe.

Pai e filho se reencontraram depois que Gonzaguinha já era adulto e fazia sucesso como cantor e compositor. Os dois passaram anos sem se falar. Antes, quando tentavam conversar, logo a conversa descambava para brigas e remorsos. Assim tem sido eu com meu pai, infelizmente. Eu, como Gonzaguinha, quero carinho e aceitação por parte do meu pai. Mas meu pai, tal como Luiz Gonzaga, é orgulhoso demais para dar-me, ou melhor, não sabe como fazê-lo. Meu pai e o de Gonzaguinha perguntam-nos até quando nós jogaremos na cara deles suas falhas, e prosseguem: “Eu te paguei o melhor  colégio, não foi? O que você queria mais?”

Em determinada cena, Luiz Gonzaga diz ao filho: “Você é um moleque! Um moleque!”. Gonzaguinha apenas fica calado, sem responder, “sangrando” como diz sua música. Meu pai já me chamou algumas vezes de “vagabundo”, “idiota”, e já me disse “me respeita!”, apontando o dedo para mim, quando eu digo certas coisas para ele. Mas eu o amo, nem deixaria de amá-lo, tenho a ele como minha razão de viver. Além do mais, meu pai já está com certa idade, não quero discutir com ele. Só quero viver coisas boas com ele.

Detalhe: Gonzaguinha não era filho biológico de Luiz Gonzaga. Assim eu me sinto, em relação a meu pai, às vezes. Como ou se eu fosse adotado ou, em outras palavras, não pertencesse a ele.

4)   Os Gritos do Silêncio (The Killing Fields). Reino Unido, 1984. De Roland Joffé. Com Sam Warsterson e Haing S. Ngor.

“Os gritos do Silêncio” foi um grande sucesso, tendo sido indicado a vários prêmios Oscar, inclusive melhor filme, melhor diretor e melhor ator. Haing S. Nigor, cambojano, ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante, interpretando o jornalista Dith Pran. O filme mostra um grupo de jornalistas ocidentais e seu correspondente no Camboja, Dith Pran, que acompanham o desenrolar da guerra civil no camboja. Seu desfejo deu origem ao regime de terror do Khmer Vermelhor, comandado por Pol Pot. Em poucos anos, 2 milhões de pessoas foram mortas pelo regime – numa população de 10 milhões.

Na segunda parte do filme, Sidney (Sam Warsterson) e os demais conseguem fugir do país, mas Dith Pran não. Ele passa então a prisioneiro do Khmer. Numa luta desperada para manter-se vivo, presencia os campos da morte, os chamados “Killing Fields” do título original. Pessoas eram forçadas a sair da cidade para trabalhar na agricultura. Quem se recusava era executado. Milhares foram assassinadas por motivos iníquos, até mesmo, por serem obedientes demais. Intelectuais, médicos, professores e outras pessoas com educação superior eram sumariamente executadas. Pran, inclusive, teve que esconder sua antiga profissão de jornalista para manter-se vivo.

A despeito de todas as dificuldades, Dith Pran consegue cruzar a fronteira do país, embora sua jornada tenha lhe deixado fisicamente baleado. Com a música “Imagine”, de John Lennon, tocando o reencontro entre os amigos Sidney e Pran, não tive como não chorar compartilhando a alegria dos personagens. Eu chorava e dizia: “ele conseguiu, que bom, não acreditava... Meu Deus, ele sobreviveu.” E mais: quando Sidney pede desculpas a Pran, por deixá-lo num país em ruínas, Pran lhe responde: “Não há nada o que perdoar Sidney, nada”.

Muito já li sobre a guerra no Camboja e outras guerras. Muitos filmes já assisti, mas foi “Os Gritos do Silêncio” que me fez chorar. Não só uma lágrima, mas um chororô com direito a soluços.

5)   O Pequeno Príncipe (The Little Prince). EUA/ Reino Unido, 1974. De Santely Donen. Com Richard Kiley e Steven Warner.

Assisti ao musical dirigido por Stanley Donen sem nunca ter lido o livro. Logo me encantei pelo garotinho que interpreta o Pequeno Príncipe, que veio a Terra em busca de significados para seus sentimentos. Sua roupa de príncipe, sua ótima interpretação e o carinho que o restante do elenco dispensa ao contracenar com ele conquistaram meu coração. “Cativaram-me” o sorriso e a voz do ator do Pequeno Príncipe.

Como não havia lido o livro, não sabia o final da história. Talvez por conta disso, por desconhecer seu final “triste”, tenha irrompido em lágrimas. Depois, ao ler o livro, notei algumas coisas que não havia percebido ao ver o filme. Mas ler o livro não tirou o encanto do filme de Donen, principalmente pelo jovem protagonista e pelas canções.

6)   As Damas de Ferro (Satree Lek). Tailândia, 2000. De Youngyooth Thongkonthun.

Este filme tailandês fez bastante sucesso quando do seu lançamento. Conta a história de um grupo de gays, travestis e transexuais que, cansados do preconceito, resolvem formar sua própria equipe de vôlei e disputar o campeonato nacional. O filme é uma comédia, divertidíssimo. Então você pode se perguntar: por que Mathias foi chorar num filme desses, que não é triste? Bom, adianto que o time vence o campeonato tailandês e ganha o direito de representar seu país nos jogos asiáticos.

O que me marcou é que o filme conta uma história verdadeira. No final, aparecem cenas dos jogadores reais, jogando e dando entrevistas em programas de televisão. Foi aí que chorei: vendo as pessoas reais, seus feitos; comparei-os com os atores. Orgulhei-me deles e me senti feliz por eles. Acho que foi por isso que chorei, de alegria.



E você? Com certeza você também já se emocionou muito assistindo filmes. Quais foram os filmes que mais mexeram com você? Eu dividi um pedaço dessa minha experiência com vocês, e adoraria que vocês contassem um pouco das suas histórias aqui. Devem ser histórias maravilhosas...

Abração!!!
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C.R.A.Z.Y.  – Loucos de Amor (C.R.A.Z.Y.). Canadá, 2005. Direção: Jean-Marc Vallée. Com Michel Côté, Marc-André Grondin e Danielle Proulx.

Neste filme canadense, temos a história de uma família formada por pai, mãe e cinco irmãos (todos homens) ao longo de 20 anos. Porém, o diretor se detém é na relação entre o pai, Gervais Beaulieu (Michel Côté, ótimo ator) e o quarto dos cinco, Zachary, talvez o mais especial deles. Mais ainda, Jean-Marc Vallée detém-se na dificuldade do pai em aceitar a homossexualidade do filho, que tanto distancia os dois.
Em Québec, Canadá, do início dos anos 60 até os anos 80, vemos Zac crescer e os altos e baixos da sua relação com seu pai. Os personagens são caracterizados conforme a época e o lugar em que viviam, a meu ver excessivamente. A caracterização marcante do tempo e lugar em que se passa a história, com suas músicas, figurinos, cortes de cabelo e até carros e casas típicos deixam-na menos universal. O amor de um pai pelos filhos e de um filho, em particular, por seu pai, é atemporal e universal. Mas aqui deu-se muita importância ao espaço-tempo (american way of life e características marcantes dos anos 70, como a música explosiva, a maconha, o movimento punk...), o que diluiu o centro de interesse do filme. A delimitação do espaço-tempo talvez advenha do fato da obra ser claramente autobiográfica.
Ponto positivo de “C.R.A.Z.Y.” é mostrar como, numa família, aquelas crianças unidas em torno do pai e da mãe vão, aos poucos, ganhando asas e alçando vôo próprio, normalmente cada um para uma direção diferente. Aí reside boa parte da beleza do filme.

Cotação: êê (bom)

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O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourgeoisie). Espanha/França/Itália, 1972. Direção: Luís Buñuel. Com Fernando Rey, Julien Bertheau e Stéphane Audran.

Três características são fundamentais na obra do diretor espanhol Luís Buñuel: a crítica à burguesia e ao clero e o surrealismo. Em “O Discreto...” temos esses três elementos bem delineados. Na história, três casais – burgueses – tentam jantar juntos, mas nunca conseguem pelos mais diversos contratempos.
O diretor prega muitas peças no espectador, quando mistura o que é real com os sonhos e devaneios dos personagens. Quando você pensa que determinada cena do filme é real, na verdade ela não passa de um sonho; ao mesmo tempo, algumas situações reais são tão absurdas que só podem ter saído de um sonho. Onde já se viu, por exemplo, você ir jantar num restaurante e descobrir que, próximo à mesa, o finado proprietário do estabelecimento está sendo velado?
Em outros momentos o trote do diretor está em tentar matar o espectador de curiosidade. Exemplo: numa cena, uma das personagens, antes de se deitar com seu amante, pede para que ele apague a luz, para que não veja seus problemas de pele pois, se os visse, correria apavorado. O diretor só nos dá essa informação. Ficamos sem saber qual o problema dermatológico da personagem e, pior ainda, não conseguimos ver como está sua pele. Claro, sob a pele da madame, um delicado vestido e luvas, e a informação de que as suas mãos já estão curadas. Mas só. Outro exemplo ocorre quando os personagens dizem algo importante, mas o som do trânsito ou de um avião faz com que não possamos ouví-los.
O título da obra é bem apropriado. A burguesia, alvo favorito do cineasta, tem seus representantes postos em situações ridículas, evidenciando a hipocrisia e as sutilezas do mundo burguês. São muitas as cenas impagáveis. O elenco é excelente e captou o espírito crítico com naturalidade. Uma ótima e refinada comédia, premiada com o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Cotação: êêêê (excelente)

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Para complementar um pouquinho sobre o filme “Amores Imaginários”, algo que escrevi tem uns 5 anos...


MAIS PERGUNTAS SEM RESPOSTAS...

Por que gostamos de uma pessoa
Mesmo sabendo que não somos
Correspondidos?
Por que aqueles que gostam de nós
É que muitas vezes não são
Correspondidos?
Se o nosso coração trabalha
pelo avesso
E não conserta
Pra que tantos amores
Desmedidos?
A ciranda parece até uma brincadeira
Mas não é porque dela saímos
Destemidos
Ou
Desiludidos.


Mathias Nelson Faria dos Reis


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Amores Imagináriois (Lers Amours Imaginaires). Canadá, 2010. De Xavier Dolan. Com Monia Chokri, Niels Schneider e Xavier Dolan. Dois amigos, Francis e Marie, se apaixonam pelo mesmo cara: Nicolas.


Música, cor e câmera lenta ajudam a transportar a outro domínio


Se “Amores Imaginários” pode ser resumido, é na sua frase inicial: “A única verdade é o amor para além da razão” (Alfred de Musset).

Também, nos depoimentos que se seguem: jovens contam, em tom de falso documentário, situações e idéias sobre relacionamentos – ou relacionamentos que não aconteceram. Chovem pensamentos sobre amor, namoro, “fica”, sexo, todos eles abordados de forma aberta por uma geração que explora os limites do relacionamento a dois.

Tais depoimentos continuam intercalados no decorrer do filme, misturando pessoas alheias que, no fim das contas, passam pelas mesmas peças que o amor prega a nós e aos três personagens principais do filme. Os personagens, tal como eles, são gente de carne e osso, cujos sentimentos e intimidade são intensamente explorados e que revelam, cada um, um pouco das angústias e ansiedades de uma juventude que quer amar, curtir e se expor. Marie, Francis e Nicolas podiam muito bem contar o que vivenciaram através daqueles depoimentos. Ou um daqueles depoimentos poderia transformar-se em longa-metragem.

Certamente o espectador se identificará com situações vividas pelos personagens, a ponto de exclamar: foi exatamente isso que aconteceu comigo! Claro que esse efeito não se dará sobre todos, mas dificilmente alguém ficará inerte ao que vê. Méritos ao roteirista, diretor e ator canadense Xavier Dolan, que fez o filme quando tinha apenas 21 anos. Seu filme é tão sensível que só pode ter sido feito por alguém que, imagino, vivenciou muitas experiências afetivas, e nunca por, digamos, um diretor contratato por um estúdio de Hollywood para dirigir uma produção comprometida, precipuamente, com o lucro.

Como explicar o amor, a paixão? Como escreveu Alfred de Musset, isso não é possível; pois o amor está para além da razão. Só depois que você “cai na real” ou “volta à Terra” – isto é, volta para o mundo da razão, que está para além do mundo do amor – você percebe que, durante tanto tempo, agiu como bobo, sem lógica; que você foi idiota e só depois se deu conta. Coisas do amor. Culpa dele. É preciso sensibilidade para discorrer sobre isso, coisa que parece não faltar a Dolan. Ao contar a história de Francis (o próprio Dolan) e Marie (Monia Chokri) - dois amigos inseparáveis, ele gay, ela hetero – que se vêem apaixonados pelo mesmo rapaz, ele nos ensina um monte de coisas. Ou melhor, nos faz perceber coisas, como, por exemplo, de que “alguém que você coloca num pedestal está sempre certo”.

“Amores Imaginários”, em sua perspectiva, lembra “Closer – Perto Demais” (2004), dirigido por Mike Nichols e com Julia Roberts, Clive Owen, Natalie Portman e Jude Law no elenco. Ambos mostram um tanto sobre relacionamento entre pessoas, focando na intimidade, com personagens e situações com as quais o espectador se integre e se identifique. Só que “Closer” mira um público mais velho, na casa dos trinta e poucos anos.

Vejo que o jovem diretor tem muito de Woody Allen quanto à pessoalidade de seu filme. Os dois têm facilidade para dialogar com as pessoas a que se propõe, pela franqueza, inteligência e sensibilidade com que se expressam. Em  nenhum momento “Amores...” se torna vulgar: ele é, antes de tudo, poético.

Da valorização da expressão dos sentimentos que voltou à tona na sociedade ocidental principalmente a partir dos anos 50, Dolan aproveitou a trilha sonora, as cores e a câmera lenta na composição de sua obra-prima. Entre as músicas escolhidas a dedo inclui-se, por exemplo, uma canção da cantora franco-egípcia Dálida, que teve uma vida pessoal um tanto passional. As cores do figurino e dos cenários realçam tanto as estações do ano em Québec quanto o interior dos personagens. O uso constante da câmera lenta, junto com boa música e lindas cores, e planos entrecortados, aumentam a profundidade das sensações dos personagens. E nos aproximam perigosamente deles; conhecemos sua intimidade. Logo percebemos, por exemplo, que Francis é bastante sensível e Marie individualista; mas ambos inseguros. E Nicolas... bem... Marie sabe como defini-lo muito bem.

Bom... sobre o amor... sua história sempre se repete... será que é porque não conseguimos colocar o raciocínio acima dos nossos mais francos sentimentos?

O final do filme é aberto e ele não poderia terminar de melhor forma.


Cotação: êêêê (excelente)

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Avenida Paulista


"Tem momentos em que sinto
tanto a sua falta
que só consigo pensar
nas coisas que vivenciamos.
Ainda há pouco,
depois do almoço,
pus-me a recordar a Avenida Paulista.
O clima ameno, as pessoas a andar
eu como um só
tentando te encontrar
em meio à multidão.
Não conseguia.
Sobrava por assistir a um filme,
pensando que, quando terminasse,
finalmente te veria.                                               
Mas, procurando em volta,
nada, procuro então no celular,
a caixa de mensagens vazia.

Cruel essa Avenida Paulista
porque eram tantas as pessoas e
em mim ninguém reparava.
E pior, eu não via quem mais desejava.
Triste, minha mente em você
de pensar não cansava.
Foi aí que comecei a perceber
que o mundo era grande demais
que em meio àquele monte de gente
você me achou pequeno
e não me quis mais."


Mathias Nelson Faria dos Reis (2007)

Obs: se você ler, saberá que é de você que estou falando. Beijos.


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Em 2013, minha mãe completaria 60 anos de idade, se estivesse viva. Faz 25 anos que ela faleceu e deixou meu pai, a mim e meus dois irmãos. Faz poucos anos que escrevi esse texto.


À Cristina

“Certa vez, sonhei acordado um dia
e o velho casarão de meus avós renascia.
eu, minha mãe, meus irmãos, tios e tias,
estávamos todos lá, para minha alegria.
Na entrada, o inconfundível NF
– Nelson Francisco de Faria –
Informava a quem viesse
o patriarca daquela família.
Uma escada de cinco ou seis degraus se subia
até a porta, de madeira e vitrais, que abria
salão enorme, mais de trinta degraus de escada,
em cima os quartos e ampla sacada.
No café da manhã, almoço e janta a cozinha servia
aos catorze filhos com comida farta.
Não era fácil, minha avó precisava 
de grande serventia.
Nessa pequena ladainha
minha vó Mundica era rainha, minha mãe a mais bonita
risonha e alegre de suas filhas.
Tudo se reconstruía:
a felicidade, a escada, o escritório, o terraço...
não me canso de rever as histórias do sobrado
onde nasceu e cresceu Cristina, mãe minha,
a mais bela flor da família.
Tão especial, que logo aos trinta e cinco
teve que partir, não sem antes dar vida
a Thiago, Edgard e Mathias.
Tão querida, que após tantos anos de sua ida
ainda me emociono, transformo em poesia
essa mulher, sua mãe, o casarão, essa vida
tão bem vivida (vida-linda-vida).
Vivo, nesse momento, uma felicidade tardia.”


Mathias Nelson Faria dos Reis

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A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi o maior e mais destrutivo conflito militar da história. Todos temos informações sobre o conflito, eu coleciono várias. Mas informações de que tipo? De início, eu checava números sobre os exércitos, o tamanho das populações e o número de mortos de cada país, na guerra. Por exemplo, a Polônia, retalhada pelas tropas dos dois maiores monstros do século XX, Hitler e Stálin, perdeu 5 milhões de habitantes, algo como 15% da população do país. Os soviéticos tiveram mais de 20 milhões de mortos, os alemães, 7 milhões, os britânicos 450 mil, e a Finlândia, com apenas 3,5 milhões de habitantes, viu morrer 97 mil de seus cidadãos. Trata-se de números.
Vários de nós já viu imagens dessa guerra em fotografias e filmes, como as dos japoneses mortos e queimados após o ataque nuclear norte-americano e os judeus em campos de concentração, só pele, osso e sofrimento.
Mas foi lendo que eu senti o maior impacto da guerra. Estou lendo o livro “Inferno: O Mundo em Guerra 1939-1945”, de Max Hastings, editora Intríseca. Veja o trecho, um depoimento de uma enfermeira polonesa, pouco após a invasão da Polônia pelos nazistas:


“‘A procissão de feridos vindos da cidade era uma infindável marcha da morte. As luzes se apagaram, e todos nós, médicos e enfermeiras, tivemos de andar com velas nas mãos (...) era uma tragédia após a outra. Em um desses casos, a vítima era uma menina de 16 anos. Tinha cabelos dourados lindíssimos, o rosto delicado como uma flor, e seus lindos olhos azuis, cor de safira, estavam cheios de lágrimas. As duas pernas, até o joelho, foram reduzidos a uma massa sangrenta, onde era impossível distinguir osso e carne; ambas tiveram que ser amputadas acima dos joelhos. Antes que o cirurgião começasse, debrucei-me sobre aquela menina inocente para beijar a testa pálida, passar as mãos impotentes em seus cabelos dourados. Ela morreu, serena, do decorrer da manhã, como uma flor arrancada por uma mão impiedosa.’” (pág. 32)


Após tanto ler sobre o tema, foi aí que eu comecei, tardiamente, a perceber o significado da guerra.

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Um rapaz formado em Direito, estudante de História, que trabalha em banco e escreve livros de RPG".

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